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(Artigo) Relato de como um gago se tornou anarquista

9413184Eu tinha apenas 10 anos quando comecei a compreender o que é ser uma pessoa gaga em uma sociedade discriminatória como a nossa. Apesar de, cedo assim, ter sofrido com as mazelas dessa conscientização, o curioso é notar que sempre fui gago, desde a primeira palavra falada, mas só anos depois, na sempre complicada transição entre infância e adolescência, que tal fato passou a ser um problema. Hoje o motivo por trás disso mostra-se claro como nunca. Algo havia mudado, não só para mim, mas para todas as pessoas que me cercavam.

Quando criança, mesmo estando apenas no começo do tratamento fonoaudiológico – onde minha fluência ainda estava longe da “ideal” –, a convivência com as outras crianças era leve e doce. A gagueira acentuada que portava não me impedia de ser uma criança normal, alegre e viva, cheia de amizades que me renderam boas lembranças. A fala não era um problema. Até hoje me recordo de uma situação onde, mesmo gaguejando, assumi a frente de uma apresentação escolar para pais e mães quando o restante do meu grupo ficou acuado diante da audiência. Fui aplaudido. A gagueira não era uma questão nem para mim, nem para os meus colegas. Contudo, ao entrar na adolescência, tudo mudou.

O motivo por trás disso busco nos escritos do geógrafo russo Piotr Kropotkin. “O que a gagueira e um teórico anarquista teriam a ver”, você provavelmente deve estar se perguntando. A resposta está em uma única palavra, cooperação. Kropotkin acreditava que a tendência natural de todo ser vivo, não só o humano, é a cooperação e o apoio mútuo. Baseado em suas experiências durante uma excursão científica na Manchúria e na Sibéria, argumentou que a competição agressiva por meio da seleção natural não é o principal fator para a evolução, como muitos darwinistas defendiam. Em seu livro Ajuda Mútua: Um Fator de Evolução, ao examinar evidências de cooperação em comunidades animais, sociedades pré-feudais e cidades medievais, o anarquista demonstrou que, embora a competição exista, o mutualismo e a cooperação são as principais forças a garantir a sobrevivência e a evolução de um grupo como todo.

É com base nessa ideia que acredito que a cooperação e o coletivismo presente entre as crianças nos espaços que circulei durante a infância foram cruciais para que eu pudesse me sentir parte integrante do grupo, como qualquer outra criança, independente das heterogeneidades existentes. No entanto, isso foi sendo modificado gradualmente conforme essas crianças eram sociabilizadas enquanto indivíduos que devem exercer uma função dentro de uma sociedade capitalista, sociedade a qual valores como competitividade e individualismo são predominantes. Utilizando o palavreado de Foucault, tais sujeitos foram sendo domesticados, se transformando em corpos dóceis, pois a escola e a família são instituições de poder e controle. A antes cooperação coletiva deu lugar a uma busca implacável por status e poder onde os indivíduos que não se encaixavam nos padrões ideais vigentes, como eu, acabavam sendo marginalizados, sofrendo, assim, com a humilhação cotidiana. Em uma sociedade que possui a capacidade retórica e a eloquência como virtudes que devem ser incansavelmente estimuladas, um gago não tem vez, nem voz. Foi nesse contexto que a gagueira passou a ser um problema.

Essa é a história de como fui transformado em um pária. Pois uma pessoa sem voz fluente é uma pessoa incapaz de exercer uma função social e, portanto, deve ser estigmatizada e posta a margem. Tal fato afeta drasticamente o desenvolvimento subjetivo de um indivíduo. Foram poucos os casos de preconceito explícito que sofri; a maior parte da discriminação vivenciada por pessoas gagas opera sutilmente. Porém, esses poucos casos se encontram bastante vívidos em minha memória. Desde uma paixão juvenil que justificou sua recusa por “ele é gago”, passando por um policial que, durante uma dura, me humilhou quando respondi a uma pergunta, chegando ao dia que uma pessoa que tinha como amiga me imitou pejorativamente diante do nosso grupo apenas para ganhar algumas gargalhadas. Isso sem contar nos inúmeros apelidos jocosos (quem se lembra do personagem Gaguinho das séries de animação Looney Tunes, o porquinho cuja gagueira era sua principal característica vendida como piada?), nas pessoas que perdiam a paciência quando não conseguia terminar uma frase e nas atenções que se desviavam quando eu começava a falar. Explícita ou sutil, a discriminação que sofri causou um agressivo impacto na minha personalidade.

A consequência disso foi um isolamento social quase que total que enfrentei por quase dez anos. Tudo isso fez com que a antes criança sociável, extrovertida e brincalhona se transformasse em um adolescente infeliz, solitário e tímido. Não que isso tivesse alterado, de fato, minha personalidade; mas o casulo o qual foi me imposto a aprisionou, impossibilitou a livre expressão do meu ser, fez com que eu ficasse preso dentro do meu próprio mundo. Acabei por desenvolver um estado depressivo que perdura até hoje. Felizmente, depois de 15 anos de tratamento fonoaudiológico, recebi alta há alguns anos atrás. Sempre acreditei que quando esse dia chegasse todos os meus problemas estariam resolvidos. Estava enganado. A discriminação e o consequente isolamento social não foram a pior parte. Como dito, as implicações subjetivas de uma opressão são terríveis. Aqui entra em cena algo que Bourdieu chamou em sua obra A Dominação Masculina de violência simbólica, uma violência que, a grosso modo, faz com que o oprimido passe a adotar os padrões do opressor.

Pois por mais que o tratamento tenha me fornecido as técnicas necessárias para melhorar a minha fluência e controlar a gagueira, ele possui um grave problema. Se sempre fui gago, por que só depois de anos a minha “deficiência” passou a ser uma questão? O tratamento fonoaudiológico falha em responder isso pois as suas premissas estão centradas em uma reabilitação do paciente, deixando de problematizar as pressões coercitivas da sociedade as quais esse paciente sofre. Em suma, a lógica é a de que há algo de “errado” com a pessoa gaga e que, portanto, tal pessoa necessita ser “curada”, ao invés de contextualizar e demonstrar que, na verdade, se há alguém que porta alguma “doença”, é a própria sociedade que marginaliza esse paciente. Devemos aprender a falar “direito” se quisermos ser ouvidos. Paralelos podem ser feitos aqui com outros tipos de opressões nas quais, por exemplo, a pessoa negra que deve “embranquecer” para não sofrer racismo, a mulher que deve se “vestir melhor” para não ser estuprada, o gay que deve “não dar pinta” para não ser espancado, entre tantos outros.

quem é perfeito
Afinal, quem é perfeito?

Tal reflexão provém de um feliz encontro. No começo do ano, tive a oportunidade de cruzar caminho com um potente texto chamado Não ao Tratamento Fonoaudiológico, o qual me fez começar a questionar o meu próprio tratamento. O que ele coloca é simples e direto: a de que a corrente dominante na fonoaudiologia compartilha de uma “presunção equivocada que é a minha gagueira, e não o preconceito do ouvinte, que causa a minha dificuldade de me comunicar”. Voltando para a minha infância, essa afirmação é ilustrada pela constatação de que, mesmo sendo gago, nunca tive dificuldade de me comunicar com as outras crianças; tal dificuldade só emergiu quando essas crianças foram coagidas a se transformarem em jovens preconceituosos e intolerantes. Ao centrar o problema no paciente, o tratamento faz com que a pessoa gaga passe a acreditar que a culpa é dela, e não dos indivíduos que a rodeiam. Esse é o principal resultado da violência simbólica. Tanto o fetiche pela perfeição oratória quanto os métodos equivocados da fonoaudiologia fazem com que a vítima não só seja culpabilizada, como passe a se sentir culpada.

Para melhor entender a crítica a fonoaudiologia, no site onde foi originalmente publicado o texto supracitado, intitulado Did I Stutter?, um manifesto foi lançado. Em determinado trecho desse manifesto o seguinte é dito:

A fonoaudiologia, a neurobiologia e a psicologia não estão dizendo toda a verdade sobre a gagueira. Foi-nos dito que a gagueira é uma coisa, um defeito biológico e médico dentro de nossos corpos; que pode ser visualizada através de tomografias, calculada usando medidores de fluências e gerenciada através de terapia: é um problema a ser consertado.

Nós discordamos. Nós nos recusamos a deixar que nossos corpos e nosso discurso sejam definidos por peritos médicos e científicos.

(…) Logo, a experiência que nós chamamos de gagueira não pode ser explicada apenas como uma mera dificuldade de vocalizar certas palavras, mas deve ser fundamentalmente entendida como uma discriminação contra formas disfluentes de comunicação e de utilização do nosso corpo.

A gagueira é apenas um problema – de fato, é somente anormal – porque a nossa cultura coloca tanto valor na eficiência e no autodomínio. A gagueira quebra a comunicação apenas por conta de noções capacitistas que decidiram de antemão o quão rápido e fluente uma pessoa deve falar para ser ouvida e levada a sério. Uma linha arbitrária foi desenhada ao redor do discurso “normal” e essa linha é vigorosamente defendida.

É justamente por essa pressuposição da gagueira como defeito que, mesmo após ter recebido alta da minha fonoaudióloga, eu estava longe de superar os meus demônios. Imagine você, fazer um tratamento por 15 anos com a promessa de que, no final, tudo vai ser resolvido, mas quando a alta finalmente chega, descobre que os seus problemas só estão começando. Sofri com o isolamento e com a discriminação, as consequentes mudanças de personalidade afetaram nocivamente a relação com a minha família, não só tive que conviver com a depressão, como ela era ainda interpretada como uma “preguiça” ou uma “fase”’ – o que fez me sentir ainda mais culpado pelo meu estado –, passei a ter acessos de raiva e de fúria na qual agredia sem motivo colegas próximos, era incapaz de conversar com pessoas estranhas, sendo obrigado a pedir para outros a falarem por mim, tive que conviver com a noção de que a minha gagueira era sinal de algum desequilíbrio emocional ou intelectual, cheguei até mesmo a tentar o suicídio. Fui silenciado, literal e simbolicamente. Tudo isso com apenas 14, 15 anos de idade. Mesmo assim, os meus problemas estavam longe de acabar.

Estavam longo de acabar pois, primeiro, não existe “cura” para a gagueira. Todo gago será gago até morrer; o que existe são técnicas que ele pode aprender para controlar a sua fluência a um nível onde a gagueira torna-se quase que imperceptível, mas o esforço necessário para falar sempre será muito maior do que uma pessoa não-gaga necessita. Falar para mim é extremamente cansativo, tudo porque se eu não falar “direito” não serei ouvido. Segundo, e mais importante, o sentimento de que havia algo de errado comigo, o qual a fonoaudiologia auxiliou a construir, criou raízes profundas na minha psique que determinaram profundamente a percepção que tenho de mim e do mundo. Tais fatos levaram a, dois anos depois de receber alta do tratamento, em 2013, eu tivesse que enfrentar a minha primeira crise severa depressiva da qual estou me recuperando até hoje a base de medicação e de tratamento psiquiátrico.

Tamanha foi a crise que ela me afetou no cumprimento de alguns prazos da minha pesquisa acadêmica. Para justificar, abri o jogo com o professor. A resposta que ouvi levou lágrimas aos meus olhos. Pois, para ela, eu tinha total condições de lidar com a minha condição por ser uma pessoa de classe média com uma família bem-estruturada, e de que o meu real problema era falta de disciplina – sim, eu, como homem branco de classe média e cis, sou privilegiado em muitos aspectos, aspectos esses que me beneficiaram em muito (como na condição financeira necessária para ter acesso a um bom tratamento fonoaudiológico ou no fato de que, mesmo sendo gago, ainda ocupo um lugar privilegiado de fala por ser homem), mas que não anulam a opressão que vivi. Mais uma vez, a culpa é da vítima. Não bastasse ter que lidar com a pressão incessante de adquirir uma “fala perfeita”, ainda tenho que me sentir responsabilizado pela depressão causada por essa pressão. Como se a culpa fosse das pessoas depressivas, e não da sociabilidade típica de sociedades capitalistas, caracteristicamente destrutiva e esquizofrênica; compartilho, dessarte, da noção de que muitas das patologias mentais que são tratadas como “doenças psicológicas” são, na verdade, frutos do modo doentio como vivemos em sociedade.

Queria eu essa ser uma história sobre superação. Não é. Ainda enfrento a depressão; uma parte de mim ainda acredita que a culpa é minha; nos momentos mais sombrios, o desejo dormente de não ter nascido gago ainda me assombra. A recusa em me aceitar é tanta que há pouco tempo percebi que, quando cruzo com outra pessoa gaga, não consigo me concentrar para ouvi-la e logo perco a paciência. De certa forma, oprimo o meu próprio par – mais uma vez, a violência simbólica em jogo. Mesmo “curado”, o dano na minha autoestima foi extenso. Por isso ainda me sinto intimidado até mesmo por amigos e amigas mais íntimas que possuem boa eloquência. Ainda me omito em momentos em que quero falar algo. Deixei de frequentar espaços de militância por perceber o quanto que a retórica é central para a participação ativa. Volto para casa vez ou outra reencenado mentalmente conversas que tive com a ilusória esperança de que elas poderiam ter sido melhores. Por conta disso, perdi inúmeras oportunidades, e ainda hoje me sinto responsabilizado por tudo que deixei de fazer por ser gago. A crença de que eu poderia ser “mais” se não fosse gago resiste em mim. Não, esse não é um texto sobre superação. É um chamado por conscientização, é uma tentativa de levar o leitor a desconstruir o lugar da oratória no processo comunicacional. Há inúmeras expressões não-verbais possíveis de serem comunicadas. A comunicação, afinal, não deveria ser uma relação de dominação, e sim de troca. Pois por mais que o caminho que necessito trilhar ainda seja longo e árduo, uma certeza ao menos eu compartilho com convicção: a culpa não é minha.

É nesse sentido que decidi nesse ano me envolver com a luta anticapacitista. Segundo o blog Chega de Capacitismo, o termo “capacitismo” significa a

concepção presente no social que tende a pensar as pessoas com deficiência como não iguais, menos humanas, menos aptas ou não capazes para gerir a própria vida, sem autonomia, dependentes, desamparadas, assexuadas, condenadas a uma vida eterna e economicamente dependente, não aceitáveis em suas imagens sociais (…).

Englobo aqui a discriminação contra a gagueira como uma forma de capacitismo, mesmo que até o presente momento não tenha conseguido encontrar uma única legislação ou norma que aborde a gagueira como uma “deficiência”. O próprio movimento anticapacitismo não toca nessa questão, pois a gagueira ainda é vista como patologia a ser tratada, e não sob a ótica da crítica à opressão estrutural. Ela é tida como um defeito individual, representada pela ideia de que quando alguém gagueja, deve ser porque está “nervoso”, e não como uma discriminação social e cultural contra certos padrões de fala (não, pessoas não-gagas, vocês não gaguejam quando tem que fazer uma importante apresentação ou quando são pegos de surpresa com alguma pergunta; no máximo, vocês hesitam). Esse texto é apenas uma das várias conversas que tenho tido desde o começo desse meu envolvimento. Contudo, não basta apenas lutar contra a discriminação capacitista. Pois, como dito, a questão maior é o conflito entre coletividade e individualidade, é a luta contra o capitalismo, contra a forma como esse sistema controla nossas subjetividades a ponto de nos botar uns contra os outros.

Recordo de uma história que vivenciei recentemente. Tive, nos últimos anos, o prazer de participar de alguns projetos de educação popular nos quais realizava atividades com crianças. Em uma dessas atividades, um menino me abordou com a seguinte pergunta, “tio, você é gago?”. No mesmo instante fechei a cara esperando por algum comentário jocoso, tão comuns durante a adolescência e a minha fase adulta. Respondi que sim. A reação do garoto me surpreendeu. Com a maior naturalidade, ele me disse, “que legal! Eu também sou!”. Naquele mesmo momento, todas as boas lembranças da infância, da solidariedade coletiva, da cooperação mútua, reluziram em pensamento. Precisamos voltar a ser crianças. Precisamos regressar a ser sujeitos coletivos.

Pois Kropotkin tinha razão. A cooperação e o apoio mútuo são elementos cruciais para a nossa sobrevivência enquanto espécie, e são essas crianças que mais sabem sobre isso. Essa, portanto, é a história de um gago que se tornou anarquista por conta de sua gagueira, uma vez que a opressão que vivi não só me tornou solidário com outras opressões, como me fez criar um desejo inabalável por um mundo melhor onde ninguém tenha que passar pelo que passei e pelo que milhões de pessoas oprimidas passam. Enquanto continuarmos a coagir nossas crianças a desenvolverem subjetividades individualistas e egocentradas a ponto de as colocarem umas contra as outras, estaremos fadados a extinção como espécie – e apenas o espírito infantil de coletividade e mutualidade que um dia tivemos pode nos salvar.

Por Gustavo Fernandes

(Artigo) O anarquismo pode nos ajudar a salvar o mundo

 é um historiador britânico que no último dia 3 de julho publicou um artigo no jornal The Guardian, tradicional periódico progressista na Grã-Bretanha, a exemplo do extinto Jornal do Brasil. O autor argumento que depois da falência do socialismo de estado e do neoliberalismo ocidental é preciso voltar aos ideais anarquistas e aos ensinamentos de alguns dos seus teóricos, nomeadamente Peter Kropotkin. Reproduzimos a seguir uma tradução do artigo, que é mais uma prova da atualidade renovada – e da atração que continua a suscitar – do pensamento libertário.


O socialismo de estado falhou, tal como o de mercado. É preciso redescobrirmos o pensador anarquista Peter Kropotkin.

Por David Priestland

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O comediante Russell Brand

A peregrinação de fim de tarde de Ed Miliban (1) até ao apartamento de Russell Brand (2), dias antes do último acto eleitoral, foi vista pelos seus partidários como um golpe inteligente para atrair o voto da juventude e pelos seus críticos como uma tentativa embaraçosa de aproveitar o carisma do messias de Shoreditch (3). No entanto, nenhum dos pontos de vista traduz o seu real significado que é um sinal da profunda fraqueza da corrente dominante da social-democracia e dos seus desesperados esforços para cooptar as energias do elemento mais dinâmico da esquerda de hoje: o anarquismo. Na sua ânsia de ridicularizar as “divagações” de Brand, os comentaristas têm ignorado a sua forte identificação com a tradição da esquerda anarquista. De fato, entre as obras que ele recomendou aos seus seguidores há uma coleção de textos duma outra figura carismática, que viveu em Londres durante alguns períodos, o pai do comunismo anarquista: o príncipe Peter Kropotkin.

A comparação entre Kropotkin e Brand pode parecer forçada. Os antecedentes de Kropotkin, que foi o herdeiro de uma das maiores e mais antigas famílias aristocratas russas, estão muito distantes das origens humildes de Brand. Kropotkin era um erudito altamente qualificado, enquanto Brand – embora inegavelmente inteligente – tem desempenhado o papel de artista popular e de orador inspirado.

No entanto, como Brand, o exilado Kropotkin tornou-se uma figura popular em Londres, elogiado pela vanguarda artística e intelectual do fim do período vitoriano – de William Morris a Ford Madox Ford. Numa estranha antecipação do namoro Miliband-Brand, ele próprio recebeu o primeiro líder do Partido Trabalhista Keir Hardie na sua casa de Bromley. E, tal como as comparações satíricas que são feitas entre Brand e o filho de Deus, também Oscar Wilde descreveu Kropotkin como um “belo Cristo branco”.

Não é nenhuma surpresa que os sábios e profetas anarquistas estavam tão na moda tanto naquela época como agora. Na Europa, antes da primeira guerra mundial, as variantes do socialismo que colocavam a sua fé nas reformas sociais lideradas pelo Estado – a social-democracia e o marxismo-leninismo – ainda não tinham começado a eclipsar o seu concorrente anarquista. E agora que o otimismo estatizante acabou, uma esquerda revigorada pela crise atual do capitalismo global está à procura de alternativas mais adequadas à nossa era individualista.

Peter Kropotkin Alexeyevich, nascido em 1842, atingiu a maioridade em tempos conturbados. Humilhado pela derrota na guerra da Crimeia, em 1856, Alexander II decidiu fazer reformas na arcaica ordem aristocrática da Rússia, embora preservando os seus fundamentos, e a família Kropotkin era partidária do antigo sistema. Em jovem, Kropotkin foi treinado na academia militar de elite da Rússia, mas a sua capacidade intelectual fez com que fosse escolhido como pajem para a corte do czar. Depressa começou a desprezar o esnobismo obsessivo e cruel do antigo regime, identificando-se não com a nobreza, mas com os camponeses que tinham cuidado dele quando criança.

Esta aliança da empatia para com os pobres com o compromisso com a atividade intelectual, especialmente a nível da ciência, veio a definir a carreira de Kropotkin – fosse ao serviço do Estado czarista ou na realização da revolução anarquista. Enviado pelos militares para a Sibéria procurou melhorar a vida dos presos, ao mesmo tempo que conduziu expedições geográficas pioneiras. E uma vez no exílio, fora da Rússia (perseguido pela sua atividade revolucionária), dedicou-se a conciliar a sua indignação moral profunda pela desigualdade social com o seu amor pela ciência através do desenvolvimento de uma visão anarquista coerente – marcando-o para além do que tinham feito os seus predecessores anarquistas intelectualmente menos ambiciosos, Pierre -Joseph Proudhon e Mikhail Bakunin .

A síntese do pensamento de  Kropotkin pode ser encontrada em dois dos mais importantes – e acessíveis – textos do anarquismo: “A Conquista do Pão” (1892) e “Campos, fábricas e oficinas” (1899). A sociedade, defendia ele, poderia ser organizada tendo como base as comunidades camponesas que viu na Sibéria, com a sua “organização fraternal semi-comunista”, livre da dominação seja do Estado, seja do mercado. E isso, insistia, não era mero saudosismo ou utopia, porque as novas tecnologias e a agricultura moderna tornariam tal desenvolvimento descentralizado altamente produtivo. Mas Kropotkin estava ciente, também, das necessidades do meio-ambiente, uma consciência que teve origem nas suas preocupações geográficas e científicas e é, por isso, justamente considerado um dos teóricos pioneiros das políticas verdes e ecológicas.

Ele também baseou a sua visão do anarquismo na ciência evolucionista. No livro “Apoio Mútuo“ (1902) defendeu que as comunidades fundadas na igualdade radical e na democracia participativa eram viáveis porque a natureza humana era cooperativa de uma forma inata. Ao contrário dos darwinistas sociais, como Herbert Spencer, que argumentavam que todas as formas de vida tinham evoluído através da “luta pela existência” e da concorrência entre organismos, Kropotkin insistiu que havia outro tipo de luta mais importante – entre os organismos e o meio ambiente. E nesta luta, a “ajuda mútua” era o meio mais eficaz encontrado para a sobrevivência.

Entre os anos de 1880 e 1920, a influência do anarquismo comunista de Kropotkin competiu com o marxismo mais estatista e ganhou muitos adeptos entre os intelectuais, camponeses e operários, especialmente no sul da Europa e nos Estados Unidos (incluindo os “Wobblies” – os trabalhadores industriais do mundo (4)). Na Ásia, o anarquismo impregnava a ideologia do Partido Comunista Chinês, e serviu de base às campanhas de desobediência civil indianas de Gandhi – embora este estivesse mais próximo do anarquismo mais religioso de Tolstói.

Mas as próprias lutas travadas pelos anarquistas acabariam por ser perdidas, em parte porque o seu compromisso com a participação democrática minou a sua capacidade de viabilizar organizações de massas estáveis e porque foram prejudicados pela violência defendida por alguns grupos anarquistas (contra a opinião de Kropotkin), o que provocou uma repressão estatal implacável. Porém, o seu destino ficou selado por uma mudança intelectual mais ampla, com o aumento do prestígio do papel dos Estados na sequência da guerra total – especialmente nas décadas de 1950 e 1960, quando quer o leste comunista e o ocidente capitalista apresentavam visões rivais de “modernização” liderada pelo Estado.

Atualmente, os Estados decaíram mais uma vez na estima popular, atingidos desde a década de 1970 pela crise da economia keynesiana e comunista, e pelo surgimento dos valores dos anos 60, que valorizam a auto-afirmação individual e a realização pessoal por cima da lealdade aos Estados-nação e a outras instituições centralizadas.

Este individualismo é particularmente forte entre as pessoas mais instruídas e entre os jovens, tal como era entre os boêmios da Inglaterra vitoriana. E não é nenhuma surpresa que o anarquismo se tenha tornado relevante novamente no espaço na esquerda nos últimos anos – desde os “anti-globalização” de finais de 1990 ao movimento Occupy de 2011. De fato, o principal teórico do Occupy, David Graeber, é um entusiasta de Kropotkin.

Os desafios do anarquismo permanecem praticamente os mesmos que existiam na época de Kropotkin. Como pode um grupo que suspeita tanto das organizações estabelecidas construir um movimento que seja eficaz a longo prazo? Como é que pode conquistar uma maioria de pessoas viciadas em um crescimento infinito e em padrões de vida cada vez mais elevados? E como pode a sua sociedade ideal, fundada sobre a democracia participativa local, controlar as enormes concentrações de poder existentes nos Estados e nos mercados internacionais?

No entanto, muita coisa mudou a favor do anarquismo. Uma sociedade mais educada está a tornar-se cada vez menos dócil e, possivelmente, menos materialista.  Enquanto isso, a falência quer do Socialismo de Estado em 1989, quer do capitalismo global em 2008, e a sua incapacidade flagrante para lidarem com a degradação ambiental, põem em questão, como nunca até hoje, a forma como vivemos. Kropotkin não é nenhum messias, mas os seus textos levam-nos a imaginar politicas que nos poderiam, de fato, ajudar a salvar o mundo.

Notas do tradutor:

(1) Antigo líder do Partido Trabalhista britânico. Demitiu-se depois da derrota do seu partido nas eleições legislativas de 7 de Maio de 2015.

(2) Ator e comediante britânico, que se tem assumido como anarquista em múltiplas entrevistas e declarações.

(3) Zona de Londres em que vive Russell Brand.

(4) Industrial Workers of the World – sindicato inspirado no sindicalismo revolucionário e no anarco-sindicalismo com grande expressão nos Estados Unidos e Canadá. Ainda existe, embora com muito menos influência do que a que tinha nas décadas de 1910 e 1920.

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